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Apresentação

RELEVÂNCIA

Entre os analistas do social, em todo o mundo, tem havido uma unanimidade na constatação de que as sociedades humanas estão passando por um verdadeiro choque do futuro resultante sobretudo dos avanços das ciências físicas e biológicas. Enquanto a física e a eletrônica levaram ao desenvolvimento da informática e das técnicas de telecomunicação, a biologia levou à biotecnologia e à bioindústria. Campos recentes da pesquisa e do desenvolvimento nas ciências biológicas, da informação e dos materiais (como a robótica, as nanotecnologias, a vida artificial, as redes neurais, a realidade virtual, aumentada e misturada e as redes planetárias de intercâmbio de informações) estão nos colocando no cerne de uma cultura nova e global. De fato, não é mais possível ignorar que estamos vivenciando uma revolução da informação sem precedentes que está desafiando nossos métodos tradicionais de análise e de ação, nossos modos de conhecer e de ensinar.

Desde meados do século XX, com o desenvolvimento acelerado das tecnologias da informática, especialmente a partir da convergência explosiva do computador e das telecomunicações, as sociedades complexas foram crescentemente desenvolvendo uma habilidade surpreendente para armazenar e recuperar informações, tornando-as instantaneamente disponíveis em diferentes formas para quaisquer lugares. O mundo está se tornando uma gigantesca rede de troca de informações.

Cada vez se produz mais informação, surgem mais empregos cuja tarefa é informar, mais pessoas dependem da informação para viver. A economia mesma está crescentemente se sustentando na informação, pois esta penetra na sociedade como uma rede capilar, como infraestrutura básica e, ao mesmo tempo, como geradora de conhecimentos que se convertem em recursos estratégicos. Se podemos estar certos de alguma coisa a respeito do futuro é que a influência da tecnologia, especialmente a tecnologia digital, continuará a crescer e a modificar grandemente os modos como nos expressamos e comunicamos, os modos como percebemos, pensamos e interagimos no mundo.

Entretanto, as tecnologias de mediação, isto é, tecnologias da inteligência ou analíticas, apresentam-se hoje apenas nos primeiros estágios de sua evolução. Elas estão ainda cruas, despersonalizadas e precariamente adaptadas às necessidades humanas de seus usuários. De fato, preconiza-se que a tendência futura das tecnologias deverá ser a de se tornarem cada vez mais inteligentes, parecidas ou, pelo menos, cada vez mais dialogáveis e interagentes com os seres humanos. É para essa direção que a computação móvel e a pervasiva estão apontando. O desenvolvimento mais pleno das tecnologias está, portanto, emergindo como um dos principais desafios para a elaboração conceitual e o design técnico e estético da era da informação. Por isso mesmo, não basta usar a informação. É preciso interferir nela, participar dos seus desígnios.

 

PERFIL

Tecnologias da Inteligência e Design Digital é um programa de estudos pós-graduados stricto sensu, mestrado e doutorado, que tem por vocação desenvolver atividades de ensino, pesquisa e intercâmbio que façam frente à revolução digital. Ao conectar interdisciplinarmente as áreas de Computação, Informática, Cognição, Ambientes Virtuais de Aprendizagem e Design e Estéticas Tecnológicas, o programa pretende responder aos desafios tecnológicos atuais, aglutinando competências científicas, humanísticas, educacionais e técnicas em uma unidade complexa e coerente.

Atendendo, portanto, à exigência de integração de competências multi e interdisciplinares, estarão conjuntamente ensinado e pesquisando engenheiros computacionais, especialistas em programação, criadores de software, especialistas em redes, especialistas em sistemas inteligentes, semioticistas cognitivos, educadores, pedagogos especializados em ambientes virtuais de aprendizagem, especialistas em design para a interação sensória e cognitiva do usuário com os sinais emitidos pelas máquinas.

Os campos disciplinares acionados caminham gradativamente do processamento das máquinas computacionais, passando pela informação e cognição até atingir a aprendizagem em ambientes virtuais e os designs e estéticas que são próprios das interfaces e simbioses dos seres humanos com as máquinas inteligentes ou analíticas. Disso resultam:

6 campos disciplinares

  1. Computação e redes
  2. Tecnologias da informação
  3. Cognição
  4. Aprendizagem
  5. Design
  6. Estéticas tecnológicas 

3 grupos temáticos
Por afinidades os 6 campos disciplinares se aglutinam em 3 grupos temáticos:

  1. Computação, informação e redes
  2. Cognição e aprendizagem
  3. Design e estéticas tecnológicas 

Combinatórias possíveis

Dos 6 campos acionados e dos 3 grupos temáticos surgem as seguintes combinatórias:

  1. Computação como suporte para o design e estéticas tecnológicas
  2. Tecnologias da informação visando à cognição envolvida na aprendizagem
  3. Estéticas Tecnológicas gerando desafios para a computação
  4. Cognição em busca de novos modelos na interface da computação e estéticas tecnológicas
  5. Modelos cognitivos e sistemas de transmissão de informação/conhecimento, ligados à aprendizagem

     

OBJETIVOS

Tecnologias da Inteligência e Design Digital significam o estudo, invenção e uso criativo das tecnologias digitais cujo desenvolvimento acelera-se na medida mesma em que esse desenvolvimento se torna mais complexo, mais sutil e mais humanizado. Acionando as áreas da Computação, Tecnologias da informação, Cognição, Aprendizagem, Design e Estéticas tecnológicas, o programa visa integrar a pesquisa de especialistas em sistemas inteligentes com a dos criadores de interfaces para a interação e simbiose humano-máquina, ambos mediados por especialistas em cognição visando à aprendizagem em ambientes virtuais. As pesquisas estão voltadas para:

  1. inteligência coletiva em ambientes interativos
  2. novos modelos de cognição na interface da computação e das estéticas tecnológicas
  3. processos cognitivos e redes de transmissão de informação/conhecimento ligados à aprendizagem.

Sistematizar a abrangência das teorias, métodos, modelos e campos de atuação que as tecnologias da inteligência e o design digital estão descortinando; encontrar os fundamentos conceituais sólidos, pertinentes à natureza interdisciplinar do programa; despertar a consciência ética do pesquisador e profissional para o rigor exigido pela produção intelectual e para o papel social que deve desempenhar são os objetivos gerais que esse programa visa atingir. Pretende-se, portanto, habilitar o estudante a compreender e desenvolver as múltiplas faces das interações do humano com as máquinas, isto é, das tecnologias analíticas também chamadas de tecnologias da inteligência, dentro de parâmetros criticamente voltados para as contradições com que as tecnologias se inserem na realidade brasileira.

 

FORMAÇÃO

Na sua natureza de programa de pós-graduação, o curso está voltado para a formação de pesquisadores, docentes qualificados e profissionais especializados.

O pesquisador deverá adquirir no programa as características do analista simbólico que lida com reflexões teóricas sobre o papel das tecnologias da informação na sociedade, tecnologias estas com aplicações na aprendizagem que, por sua vez, depende de designs de conteúdo, interface e interação adequados. Portanto, um perfil profissional que exige o trânsito contínuo entre o humanismo filosófico e social e o diálogo com as ciências que lidam com tecnologias cognitivas.

Assim, o perfil do pesquisador que o programa formará é um perfil híbrido. Não se trata do cientista da computação em sentido estrito. Também não se trata do cognitivista e do educador em sentido estrito. Nem se trata ainda do artista tecnológico em sentido estrito, mas de uma mistura dessas facetas com ênfase maior ou menor em cada uma delas, dependendo dos interesses de pesquisa do estudante.

Enfim, um tipo de pesquisador, docente e profissional com formação híbrida e, ao mesmo tempo, especializado cuja existência as sociedades das redes estão reclamando com apelo cada vez mais forte.

 

INTERDISCIPLINARIDADE

O programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital nasceu da busca consciente para integrar algumas áreas de conhecimento e de pesquisa em uma unidade complexa e conceitualmente coerente. A multi e interdisciplinaridade proposta não se encontra apenas na estrutura curricular, mas também em várias outras facetas do programa que devem ser levadas em conta, como se segue:
 

1. Simbiose humano-tecnologia
No multifacetado campo das tecnologias digitais, a inter-multi e transdisciplinaridade é condição sine qua non.

Para desenvolver as complementaridades, interfaces e simbioses do ser humano com as tecnologias, prometidas pelo universo digital, tanto a nível científico, quanto estético e técnico, uma formação dominantemente computacional, proveniente das ciências duras, é insuficiente, visto que, para ser compreendida, a realidade biomaquínica reclama por fundamentações e pontos de vista transtecnológicos.

O outro lado da questão não é menos verdadeiro. Uma formação humanística, sem o conhecimento intrínseco do tecnológico, perde seu poder de atuação crítica e de interferência nos rumos da tecnologia. Disso resulta a natureza eminentemente multi e interdisciplinar do programa de Tecnologias da Inteligência e Design Digital.

2. Parecer qualificado
Um dentre os pareceristas que julgaram o projeto do programa de Tecnologias da Inteligência e Design Digital para a Comissão Geral de Pós-graduação da PUCSP, apontou com muita precisão para o valor da interdisciplinaridade nas áreas que o programa integra. O parecerista afirmou:

"O aspecto mais original do curso proposto é o seu conceito de interdisciplinaridade. Até o momento, as tecnologias da informática e da telemática têm sido enfocadas, nos ambientes de pesquisa, sob dois aspectos diametralmente opostos:

sob o aspecto de geração de tecnologia, através do desenvolvimento de hardware e software nos planos da engenharia e da programação;
sob o aspecto de aplicação dessa tecnologia nas demais atividades humanas, através da criação de produtos específicos para largo consumo social.

De um lado, engenheiros e programadores desenvolvem competências para a criação de máquinas e programas, mas têm dificuldades para entender as demandas concretas da sociedade em termos de aplicabilidade na vida e na cultura.

De outro, artistas e criadores lidam diretamente com a inserção social dessas máquinas e programas, mas falta-lhes competência técnica para adaptá-los às suas necessidades de criação.

Uns têm dificuldade de dialogar com os outros, mas ambos necessitam de feedback da outra parte para que suas respectivas atividades criadoras possam ter conseqüência e alcance.

O curso proposto busca colocar em sintonia esses dois lados da criação contemporânea, acrescentando a eles ainda uma outra dimensão importante: a da educação.

Assim, juntando em um mesmo corpo de pesquisadores competências derivadas dos campos das ciências exatas e engenharia, bem como aquelas derivadas do campo das artes e humanidades, e acrescentando a isso tudo ainda projetos de inovação no plano da educação, a proposta parece se concentrar na criação de um núcleo avançado de formação e pesquisa, onde investigadores de diferentes áreas possam cruzar suas respectivas experiências para propor projetos integrados e de longo alcance".

3. Conceito
O sentido de interdisciplinaridade se alastrou de tal forma que suas definições variam de país a país, de instituição a instituição, de uma parte de um campus a outra, e mesmo entre membros de um mesmo grupo.

Além disso, a dimensão e visibilidade relativas das atividades de interdisciplinaridade variam grandemente, desde as estruturas formais, explícitas, até a presença implícita que pode florescer mesmo onde não existe o rótulo de interdisciplinaridade.

Para Klein (Interdisciplinarity. History, Theory & Practice, Wayne Press, 1990, p. 55), a interdisciplinaridade é comumente definida pelo menos de quatro maneiras:

  1. pela motivação, quer dizer, por que ela ocorre;
  2. pelo exemplo, isto é, que forma ela assume;
  3. pelos princípios da interação, ou seja, os processos pelos quais as disciplinas interagem e
  4. pela distinção dos níveis de integração.

Segundo Armstrong, (apud Klein ibid.: 57), há quatro níveis diferentes de integração interdisciplinar:

  1. os estudantes escolhem cursos de diferentes departamentos direcionando-os para uma disciplina principal;
  2. a instituição fornece oportunidades para que os estudantes se encontrem e compartilhem insights de diferentes cursos, em seminários comuns;
  3. os próprios professores juntam os estudantes em um processo de conhecimento sintetizado (o que implica a criação de cursos que focalizam tópicos interdisciplinares, requerendo a presença de mais de um especialista e realizando-se geralmente de forma serial);
  4. há uma tentativa consciente de integrar materiais de vários campos do conhecimento em uma nova unidade intelectualmente coerente.

Embora o programa de Tecnologias da Inteligência e Design Digital coloque ênfase nesse último nível, os outros três também comparecem, pois cada um desses modos de integração possui uma riqueza que lhe é própria e que não deve ser perdida.

4. Motivação
A natureza multi e interdisciplinar já está presente na motivação e síntese dos objetivos que guiam o programa.

A forma que essa interdisciplinaridade assume está dada, prioritariamente, nos projetos interdisciplinares de pesquisa, integrados por professores e estudantes de áreas distintas, projetos estes que se constituem na espinha dorsal do programa.

As disciplinas são importantes, mas o programa visa evitar, através de seus projetos de pesquisa, que dar e assistir a aulas seja tudo o que o programa requer de seus professores e estudantes. Trata-se, isto sim, de criar um ambiente interdisciplinar de pesquisa que exija e propicie o intercâmbio de áreas e experiências.

5. Níveis de integração 
Os níveis de integração das atividades do programa de Tecnologias da Inteligência e Design Digital apresentam-se do seguinte modo: 

Algumas disciplinas são, por natureza, interdisciplinares. Entretanto, outras pertencem a uma área especializada. Julga-se que multi e interdisciplinaridade não significam ausência de especialização. As áreas que se pretende integrar têm sua própria especialidade.

Deve ser facultado aos estudantes de pós-graduação o aprofundamento em áreas de especialidade. Deve também lhes ser facultada alguma margem de liberdade na escolha de algumas disciplinas. É essa flexibilidade que a estrutura modular do programa visa implementar.

O desenvolvimento dos projetos de pesquisa implicam necessariamente situações em que professores e estudantes se encontrem e compartilhem insights a partir de desafios que uma área deverá criar para a outra.